PERSPECTIVAS PARA O SETOR FLORESTAL - Variados

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Moacir José Sales Medrado, Engenheiro-agrônomo, CREA 1.742-D CE, Doutor em Agronomia, Especialista em Planejamento Agrícola, Manejo de Agroecossistemas e Agrofloresta,Investigador científico e Chefe Geral da Embrapa Florestas, medrado@cnpf.embrapa.br

 
As florestas são geradoras de produtos e serviços para a humanidade e, por isso, são pressionadas pelo crescimento da população mundial que, anualmente, consome cerca de 1,6 bilhões de metros cúbicos de madeira.
Estima-se que se em 50 anos todos os países atingirem o padrão médio de consumo dos americanos, a demanda mundial anual de madeira poderia chegar a 10 bilhões de metros cúbicos, muito acima daquela estimada pela FAO para 2050, que é de dois a três bilhões de metros cúbicos. Nos dois casos a pergunta é como será e como se fará o suprimento para tamanha demanda, de forma sustentável, sem dilapidar os recursos florestais do planeta.
No final do século XX, grupos sociais organizados em defesa das Florestas Naturais (FNs) debitavam à demanda do setor de base florestal grande parte da responsabilidade pelas agressões sofridas pelas FNs e pressionavam pela formulação de políticas ambientais e econômicas mais restritivas. Esse fato fez com que grande parte das empresas do setor reagissem de forma positiva, adequando-se às exigências ambientais legais e buscando sistemas de certificação. Espera-se, portanto, que durante o século XXI a discussão seja centrada na busca de formas adequadas para o atendimento das necessidades de conservação das florestas, para uso das gerações futuras, sem deixar de atenderas necessidades legítimas da geração atual. Acreditamos, sinceramente, que o bom senso nos levará a considerar uma pauta mais enriquecedora.
Acredita-se que, a partir de agora, o manejo florestal não mais será visto como uma simples forma de extração econômica de madeiras da floresta e sim, como um sistema de exploração que considerará o uso sustentável das florestas, incluindo a idéia de usos múltiplos e da exploração de baixo impacto. A conservação genética, o controle local (manejo de precisão), a garantia da saúde do ecossistema florestal (espécies indicadoras), a obrigatoriedade da certificação, e formas modernas de monitoramento dos modelos através da interpretação de imagens e de sistemas de georeferenciamento passarão a ser temas centrais nas discussões sobre o manejo de FNs.
Com a modernização do manejo de FNs, espera-se uma aceleração na regeneração natural e uma diminuição no tempo de recuperação da floresta. Cada vez mais a exploração florestal se especializará e se tornará uma atividade dependente da ciência e das tecnologias modernas, aumentando, em função disso, o número de grupos com capacitações técnica, científica e gerencial para utilizar as FNs.
No que concerne às plantações florestais de rápido crescimento - PFRC (com rotação de até 50 anos), a tendência é de que elas terão ampliação substancial devido a alguns pontos, dentre os quais destacam-se: 1. pressão dos ambientalistas sobre a exploração das FNs; 2. maior produtividade das PFRC em comparação com a exploração de FNs; 3. utilização de materiais melhorados nas PFRC; 4. menor ciclo de exploração que as FNs; 5. menor prazo na geração de tecnologias; 6. possibilidade de seleção de sítios específicos para plantio.
Atualmente, as PFRC somam cerca de 50 milhões de hectares, produzem 20 % da colheita de madeira mundial e suprem de forma crescente as indústrias do setor de base florestal no mundo. Há estimativas de que em 2030 sejam 80 milhões de hectares suprindo cerca de metade da demanda de madeira do mundo e, certamente, grande parte delas estará em pequenas e medias propriedades rurais, seja em regime de integração com grandes empresas, seja em projetos associativos, que visem agregação de valor, organizados por produtores independentes ou vinculados a cooperativas agropecuarias. Elas deverão, também, substituir grande parte dos produtos obtidos pela exploração de FNs, com a vantagem de apresentarem maior uniformidade de fibras, principalmente, quando a PFRC for clonal.
No século XXI, assistiremos ainda, a uma melhoria na eficiência da atividade florestal madeireira. Produzir-se-á mais produto com igual quantidade de matéria prima e se terá menores desperdícios nos processos de exploração e de industrialização. Para tal, será imprescindível a modernização das serrarias em operação nos países tropicais, a melhoria da eficiência dos processos de produção de papel e celulose e a seleção de materiais genéticos com maiores rendimentos e qualidade superior, para os vários usos. Também terão elevado impacto, neste século, a reciclagem e as novas tecnologias voltadas para a produção de Oriented Strand Board – OSB, Médium Density Fibreboard – MDF e da nova família de produtos laminados, em especial a Laminated Veneer Lumber – LVL. O aproveitamento máximo das árvores, em plantações comerciais, apesar de ser importante do ponto de vista da diminuição da pressão sobre as FNs, levará a uma grande pressão sobre os sítios que poderão se tornar pobres, acarretando uma quebra da sustentabilidade da produção. Portanto, os estudos de sustentabilidade de sítios deverão merecer atenção especial da pesquisa neste século.
Resolvidas as questões de suprimento da demanda de forma adequada, a certificação independente será de fundamental importância para mostrar à sociedade que a matéria prima utilizada pelo setor provém de áreas submetidas a boas práticas de manejo. No caso específico de matérias primas e produtos provenientes de manejo de florestas naturais, além do processo de certificação independente é provável que sejam estabelecidas barreiras não tributárias se a área explorada estiver localizada em biomas com sérios problemas de perda de biodiversidade.
Acredita-se, portanto, que no século XXI ver-se-á que: a) a exploração das florestas naturais não dará conta de atender a demanda mundial de madeira, havendo, portanto, um espaço significativo para as PFRC; b) os modelos de produção florestal considerarão o aumento da produtividade da exploração e a diminuição de desperdícios; c) a geração de tecnologias inovadoras na área de engenharia da produção florestal diminuirá a necessidade de matéria-prima para a fabricação de alguns produtos d) o tamanho das plantações será substancialmente diminuído e sua complexação ampliada; e) haverá um aumento substancial nas áreas com plantações florestais nas pequenas e médias propriedades rurais; e f) a certificação dos empreendimentos florestais será inevitável.
De posse dessa visão prospectiva, entende-se que há necessidade, urgente, de uma interação entre o governo e setor de base florestal, no sentido de gerar políticas públicas que incentivem a produção florestal de forma sustentável e fortaleçam o setor frente a concorrência internacional. Dentre as principais ações, destacam-se: 1. Garantir, através de mecanismos inovadores, o suprimento de matéria prima; 2. Melhorar e ampliar a produção e a comercialização de produtos de madeira de florestas plantadas, assegurando através da competitividade a atração de investimentos necessários para seu desenvolvimento sustentado; 3. Conduzir a revisão dos dispositivos legais, de forma que considerem as realidades nacionais e regionais, e sejam mais eficientes, reduzindo desta forma o custo de transação; 4. Apoiar a pequena e média empresas industrias e comerciais, que predominam no segmento de produtos de madeira sólida; 5. Desenvolver e implementar um sistema de informação e de inteligência de mercado para apoiar o planejamento estratégico de ações do governo e dos investimentos privados; e 6. Atuar em fóruns internacionais relevantes, visando à mitigação de barreiras de acesso ao mercado e ao fortalecimento da imagem do produto “Madeira do Brasil”.
Por último, vale ressaltar a necessidade de uma efetiva interação entre os seguintes ministérios: Agricultura, Pecuária e Abastecimento - MAPA, Desenvolvimento da Indústria e do Comércio – MDIC, do Meio Ambiente – MMA, da Fazenda – MF e do Desenvolvimento Agrário – MDA, sem a qual o setor de base florestal se ressentirá, uma vez que a tarefa de desenvolvê-lo é essencialmente interministerial.

Referências Bibliográficas:

Não há pois é um texto opinativo


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